You, me and him...

@Ana

Cada um pela sua mao e pela sua cor.
Suamos, rimos, planeamos e tentamos fazer melhor.
Num pequeno corredor ficou o nosso perfil.
A nossa singela marca.



Por esta partilha... obrigado.

Até...

@Ana


Lembro-me do pacote de bolachas Belgas. As simples sempre guardadas num armario para quando la iamos sabado de manha. Gosto de Belgas e biscoitos desde ai, de tao cedo. Nessas manhas la estava na sua cadeira, esperando por nos, lendo a Maria ou vendo a missa na televisao. As vezes dizia-me "tens de ter paciencia" ou "porta-te bem para o menino Jesus te trazer prendas no Natal". Gostava de falar, de contar as suas historias e recordar quem com ela partilhava a vida.
Os seus lenòos de pano, as suas plantas, as almofadas, o xaile e as fotografias de toda a familia que a acompanhavam na sala e mostravam como cresciamos. A casa pequena que se enchia na manha de Natal. Juntavamo-nos todos a sua volta, rindo e, inconscientemente, agradecendo ao calendario a oportunidade de sermos uniao. Depois os mesmos beijos ternos e tranquilos.
Do que fica e guardarei perdura a generosidade, a alegria transmitida em geraçoes e a força de quem nao se rendeu ate ao ultimo suspiro. Fica em nos a memoria.
Por aqui a sua terminou. Agora voa e olha por nos...

...Para sempre, avo Noemia

Sabi...

Andar a pé. Sentir a pele presa ao solo e mudar nele. A chuva que cai e cala. Os rios que não acabam. As correntes que definem os rumos. Acordar com o sol, com bichos que não conheço. Aceitar. Sorrir. Falar. Parar para escutar. Entrar e sentar. Partilhar a comida na constante oferta. Os dias que não se contam, que fogem, a terra que espera mais suor. Os frutos que se colhem longe. As ideias, a cultura, a língua. Quente, quase nada de frio. O pão. Saborear o ovo porque é um ovo e sabe a ovo. Beber chá no adeus das estrelas. Pintar, desenhar, descobrir. Que sou no outro, no próximo dedo que estico, nas marcas que a roupa vai guardando. O poder de pensar de novo, no mesmomas de outra forma. A vontade espontânea nas simples acções. Procurar. O fim de tarde na ponte. O lixo. A cor. Dos tecidos, da pele, dos campos de arroz. Branco. Preto. O olhar enorme. A madeira para o homem, a enxada para a mulher. O caju, a manga, o amendoim. As palmeiras a abrigarem os pássaros. O céu. O azul que é elipse. A generosidade. Música em intervalos. Velas. Carvão nas costas, dinheiro na mão, filhos na espera. A casa arrumada e a toalha na mesa. Os meus rituais. O café, o chapéu, a rede mosquiteira. Os rins que pedem descanso. O caderno riscado. Moringa. Quem resiste e quem se rende. O lume. A mochila aberta...

Céu...

Passeio de canoa pelo rio Mansoa

A trabalhar à luz da vela

Qualidade de vida na minha rede!


Aqui o céu não acaba. Para onde quer que vá segue-me sempre a mesma companhia. E no passeio do rio vejo como as cores se abraçam umas nas outras, como as formas respeitam uma harmonia natural, como a água se aproxima da terra e a terra do céu. Viajo na presença constante, parte dos dias que comigo vão e vêm. Espreguiço-me nesta alegria...
O meu chapéu adormece na esquina da cadeira e eu sinto vontade de escrever. Experimento uma vida escassa em utensílios e acessórios. Não lhes sinto a falta. Sobram-me momentos mágicos que se vão repetindo cada vez mais. Vou-me conhecendo e na subtileza do agir e do estar as respostas aparecem. Não há pressa. Reparo agora no que antes me fugia diante dos olhos. Lá vou crescendo, mudando e construindo dia a dia a segurança de SER! Feliz, ansiosa, trapalhona, sonhadora, obstinada, imatura, humilde e... o que não é preciso definir ou tentar classificar. Eu. Sonho com mais e com melhor! Sonho com vocês. Sonho e sonho e sonho!
E amo... Cada vez mais... a liberdade!

Lumo...

Eu e a Dionísia na nossa banca de venda

O local onde se vendem os porcos e as cabras

Aqui reina o plástico e o alumínio

Pessoas, carros e produtos tudo condensado em sonora azáfama

Todas as sextas-feiras em Bissorã é dia de Lumo (mercado). É sem dúvida o dia mais animado da semana e aquele em que se vê de tudo e se pode comprar quase tudo. Durante os outros dias o espaço onde decorre o mercado está mais vazio, menos sujo e mais silencioso. Porém no final da semana lá chegam as mulheres com os alguidares à cabeça, os carros que, além das pessoas, trazem sacos de carvão, lenha, cabras, malas com roupa e tudo o que for possivél. Das tabancas vêm as crianças, gigantes guerreiros, montadas nos carros de burro para se abastecerem de mantimentos. O mercado traz gente de todo o lado, desde Bissau até do Senegal e Guiné-Conacry. É um mundo à parte. As pessoas gritam e sorriem enquanto tentam vender as suas coisas. Há quem se prepare especialmente para este momento já que é a grande oportunidade comercial de toda a semana. Eu sempre gostei de mercados e este é sem dúvida especial e diferente. Ainda para mais neste dia em particular em que me tornei vendedora e fui, por um dia para já, humilde comerciante a tentar vender o meu produto.
Mas passando a explicar...
A ADPP promoveu há uns meses dois seminários sobre transformação de frutas (cajú, manga, cabaceira, alfarroba e ondjo) entre as mulheres horticultoras de forma a que estas pudessem rentabilizar o produto das suas colheitas. Assim foram ensinadas a fazer compotas, marmeladas e sumos a partir das frutas referidas. O objectivo é o seu reaproveitamento em outros produtos que podem ser igualmente vendidos e cujo prazo de validade é maior. O resultado desse seminário foi a produção de compotas de manga (maravilhosas por sinal e que têm sido parte fundamental do meu mata-bicho), cajú, alfarroba e cabaceira, calda de tomate e sumos de cajú e ondjo. Finalizada a produção os frascos foram entregues para a escola da Ajuda às crianças para que os seus animadores pudessem fazer a sua promoção e posterior venda. Até agora as compotas estavam perdidas num armazém e foi graças à visita da embaixada francesa que se começou a pensar seriamente em vender estes produtos. Juntamente com Margherita e 3 alunos de comércio da Escola Vocacional da ADPP lá organizamos tudo. Os alunos Laurinda, Dionísia e Francisco fizeram os cartazes e nóes seleccionamos as compotas e sumos para vender. Gean ajudou a limpar as mesas e as cadeiras e a carregar o material. E assim foi, lá fomos nós feitos verdadeiros feirantes vender para o mercado! A localização era óptima: na estrada principal que dá até Bissau e onde sempre passam pessoas, no início do mercado e um pouco afastados da confusão principal.
"Estaminé" montado, vá de promover o produto:

" Bin bin jubi nosso produto. I natural i sabi. Aki tudo tem, tudo sabi.
Bin sinhora tissi uma compota! Manga di barato e nos patin um sumo pikeno na cumpra de dus compotas de 1l!"
( Venham ver os nossos produtos. São naturais e saborosos. Aqui temos de tudo e é tudo bom. Venha senhora e tome uma compota. Muito barato e nós oferecemos um sumo pequeno na compra de duas compotas de 1l. )
Depois de muito sol, um valente escaldão, uma sandes de pão com chocolate e outra com ovo, dois sorvetes de ondjo, promoção de chapéu em chapéu e loja em loja o saldo é claramente positivo! Vendemos mais do que estávamos à espera e visto que era um protduto novo na "praça" correu bastante bem. Daqui para a frente é tentar vender mais e colocar as compotas no comércio local. Se a sorte nos ajudar quem sabe se a venda não se prolongará até ao enorme mercado Bandim em Bissau! Eu adorei a experiência e para os alunos de comércio foi uma actividade que lhes proporcionou uma aprendizagem prática que lhes servirá de certeza num futuro próximo.

Crocs invadem a Guiné...

Do armazém para a organização na rua


Colocar os pares certos e em grupos para se distribuirem depois

Chefes de um agrupamento de mulheres horticultoras que vêm recolher os seus sapatos

Cores, tamanhos e formas tudo numa viva confusão

Teresa, Bebé, Margherita e eu a trabalhar arduamente...

Se há algo que não existe neste "trabalho" até agora é monotonia. Há sempre coisas por fazer e novidades ao espreitar de um armazém, neste caso. Directamente da Holanda para Bissau e de Bissau para Bissorã aí estão eles: os Crocs! Esses modelos cómodos, coloridos e de plástico... A sua produção em larga escala na China e, certamente, um vantajoso acordo diplomático entre a empresa produtora e a ADPP permitiu que cerca de 3 mil pares destes sapatos fossem distribuídos por toda a região de Bissorã. Foram contemplados 4 grupos principais: Agrupamentos de Mulheres horticultoras, Famílias de diferentes tabancas (pequenas vilas situadas no meio dos campos), encarregados de educação e alunos que estudam nas escolas da ADPP. Claro que cada funcionário da escola e da ADPP ficou com o seu par. Tudo começou por gigantes sacas que se acumulavam há alguns meses nos armazéns da escola. Tiradas as sacas vá de contar e separar muitos e muitos sapatos, fazer listas de nomes um tanto ou quanto estranhos ( Segunda N'Gonda, Cumba Tchuda, Malam Sanha, Quinta Iála, Bintá Camara... só para exemplificar) e tentar organizar o melhor possivél a distribuição. A partir da escola os pares eram levados para as tabancas pelo Gastão ou então as próprias mulheres ou chefes de famílias vinham buscá-los. E lá iam as sacas novamente, em cima de bicicletas ou na mota.

Divertido e cansativo.

Muita cor e muita confusão.

Muitos sorrisos e satisfação de quem recebia algo novo.

Como se diz por aqui: "Manga di sapatos ki nos tissi gosi!" ( Muitos sapatos que nós temos agora)

Antes e depois...






Quando cheguei à escola da ADPP - Ajuda às Crinaças esta era uma das salas de aula, a da 4ª classe nomeadamente. Mais conhecida como "a barraca" tinha um telhado feito em palha, as paredes a cair e o seu interior era escuro e poeirento. Após um mês e algo de árduo trabalho eis que surge uma renovada e bonita sala de aula. Deitaram-se paredes e telhado abaixo, limpou-se o chão, ergueram-se de novo as paredes e o telhado é agora feito de placas de zinco. Entre todos, Bebé, Lamini, Fevra, Teresa, Margherita, Adolfo e eu, foi possivél transformar a velha palhota numa sala de aula de aula de verdade. Agora só falta terminar a pintura do quadro e rebocar um pouco a parede na parte de fora. Ainda me lembro de quando uma das paredes caiu, era o princípio da mudança! Adolfo, velho carpinteiro desdentado e sorridente, pendurava-se entre as tábuas de sibi do telhado para as arranjar. Os pedreiros Lamini e Fevra sentavam-se à espera do mata-bicho enquanto eu ia varrendo, varrendo e varrendo. Depois do santo pão lá começavam a trabalhar. Margherita e Teresa pintaram as paredes e colocaram os bancos. Está quase!
Já imagino a criançada a correr até à nova sala...